segunda-feira, 8 de junho de 2026

DESDOLARIZAÇÃO E FIM DA PAX AMERICANA

 Ainda no calor da Segunda Guerra Mundial, os Aliados se reuniram em Bretton Woods para redesenhar a arquitetura financeira internacional. Duas concepções brigaram entre si, representando o confronto das hegemonias em jogo: o britânico e o americano. As duas concordavam nas causas econômicas que levaram a Europa a detonarem duas guerras mundiais, mas discordavam das soluções.

O diagnóstico era que o padrão-ouro havia sido importante para manter a estabilização monetária e segurar a pressão inflacionária das moedas, mas precisamente essa rigidez era fonte de problemas quando as crises do capitalismo se apresentavam, pois, para fugir da instabilidade, os países tendiam a fazer uma verdadeira corrida para o ouro, o que estimulava políticas protecionistas na lógica “empobreça o vizinho”. Para se proteger, os demais países também erguiam suas próprias barreiras e o comércio internacional era completamente destruído, agravando a crise. Além disso, o padrão-ouro dificultava a aplicação de políticas contracíclicas, pois esta requeria uma liquidez que o metalismo negava - ao contrário do que se prega nos dias atuais, as grandes potências da época sabiam que, para combater a recessão, a aposta deveria ser em investimentos públicos e busca por pleno emprego, para poder fomentar a circulação de mercadorias e, consequentemente, de capitais. Dessa forma, ambos os lados entendiam que a nova arquitetura internacional deveria proteger o comércio internacional e, ao mesmo tempo, a estabilidade das moedas.

No corner inglês, estava John Maynard Keynes, que defendia a criação de uma moeda internacional para substituir o ouro, o bancor, além de uma instituição supranacional que supervisionasse os acúmulos de superávits ou déficits, controlando a conversibilidade das moedas conforme o resultado do balanço de pagamentos, gerando apreciação cambial para os países superavitários, o que desestimularia as exportações; e depreciação para os deficitários, o que desestimularia as importações, colocando o sistema de volta ao equilíbrio. Era um mecanismo de ajuste dos dois lados.

Do lado ianque estava White, que defendia que somente o dólar deveria ter conversibilidade em ouro, enquanto as demais moedas lastreariam o seu valor em dólar, evitando, assim, a corrida para o ouro quando as crises aparecessem. Os Estados Unidos deveriam garantir a conversibilidade entre o dólar e o ouro para manter o sistema equilibrado, garantindo a liquidez do sistema internacional. O antídoto contra os desequilíbrios se daria através da promoção do comércio internacional, que seria garantido por uma organização internacional - que, naquele momento, não saiu do papel e o mundo teve que se contentar com o GATT -, e por ajustes promovidos pelo FMI. No modelo americano, somente quem tivesse déficits seria “punido” com o remédio amargo.

Não é difícil imaginar que o modelo de White dava aos americanos um poder extraordinário sobre o comércio internacional e privilegiava os grandes exportadores de manufatura, em detrimento dos países de economia primária. Porém, apesar da proposta keynesiana parecer mais “justa”, ela guardava consigo o congelamento do poder econômico, uma vez que os países atrasados inefavelmente deveriam ter o Estado como indutor do desenvolvimento, o que gera superávits comerciais que seriam neutralizados pelo sistema bancor, criando dificuldades para ter crescimento acelerado. Via de regra, desenvolvimento com livre comércio se traduz em desvalorização cambial.

A posição mundial americana em 1944 como grande economia mundial, garantidora de suprimentos militares e empréstimos, além do seu envolvimento direto no teatro de guerra, fez com que sua proposta fosse aceita a contragosto pelas demais potências. Com isso, os Estados Unidos conseguiram um poder geopolítico extraordinário emissão de moeda, sem que isso afetasse a sua economia como afetam as demais nações, uma vez que os dólares vão para o exterior e exportam a inflação que a emissão poderia eventualmente causar - não completamente, é claro, mas em grande medida. Essa inflação funciona como uma verdadeira tarifação global que financia a economia estadunidense.

Não obstante, o arranjo do padrão dólar-ouro carregava consigo uma contradição inerente: o acordo era que os Estados Unidos seriam o único país ter moeda com conversibilidade plena com o ouro, no entanto a emissão de dólares cresce a um ritmo muito maior do que a produção deste metal, o que faz com que, no longo prazo, o país não consiga garantir a plena conversibilidade prometida. É o que ficou conhecido como Dilema de Triffin. Pois bem, esse problema já começou a surgir logo nos anos 50, quando o mundo ocidental abraçava o Estado de bem-estar social e a periferia tentava emplacar o seu crescimento acelerado via nacional-desenvolvimentismo. Para além disso, os próprios governos americanos ligaram a impressora no máximo para poder financiar sua expansão militar e sua intervenção na Guerra do Vietnã.

Um episódio inusitado aconteceu nos anos 60, quando os Estados Unidos basicamente estavam exportando papel pintado e importando bens reais para bancar o esforço de guerra e o general de Gaulle, mandatário da França, sentiu o cheiro da pirâmide monetária imperialista. O velho militar odiava a dependência europeia dos Estados Unidos, selada a a aço e dólar pelo Plano Marshall, e passou a denunciar o “privilégio exorbitante” ianque. Em 1965, anunciou que iria começar a resgatar o ouro francês que estava em Fort Knox, queria ouro mesmo, metal, não ouro-papel. Só que aí entra o detalhe curioso: como se transporta ouro de verdade? Certamente não era em containers de navios mercantes. Para viabilizar o translado, de Gaulle teve que mobilizar um navio de guerra e aeronaves militares. A imagem que ficou era: “De Gaulle manda navios de guerra buscar ouro em Fort Knox”. O gesto virou um símbolo da desconfiança ao Sistema Bretton Woods.  Depois disso, outros países começaram a pensar “peraí… talvez a França tenha visto algo que eu não tenha visto…”. As reservas começaram a derreter e, em resposta, Richard Nixon fechou a janela do ouro em 1971. A partir daquele momento, Washington determinou que dinheiro era uma questão de fé.

Esse poderia ser o preâmbulo do fim da primazia do dólar no comércio internacional, porém aconteceu justamente o contrário. Após a turbulência do Choque Nixon, uma parte do capital internacional correu para garantir estabilidade comprando ouro, enquanto uma parcela substantiva se protegeu comprando… dólares! A coisa iria ficar ainda mais doida em 1973, quando os países produtores de petróleo impuseram um embargo econômico contra os Estados Unidos e seus aliados no bojo da Guerra do Yom Kippur. O preço do petróleo quadruplicou. E os Estados Unidos de Kissinger resolveram aproveitar a crise para dar o golpe de misericórdia na autonomia da economia mundial: negociou com a Arábia Saudita que a compra do petróleo entre ela e qualquer outro país seria feito exclusivamente em dólar, em troca de proteção imperial. A Arábia Saudita, que via em Israel a sua maior ameaça à segurança, consentiu. Veja a astúcia americana: Washington cria o problema (uma Israel incrivelmente armada e militarizada) e vende a solução (bases americanas para garantir a segurança). Uma solução que parece muito com a forma de agir das milícias cariocas. Na prática, o que o hegemon estava fazendo era relastrear o seu dinheiro no ouro-preto, criando o esquema petrodólar. Não existe moeda sem lastro.

O petrodólar é um esquema de reciclagem de dinheiro que deu a tônica dos anos 70. Com o preço exorbitante e a baixa elasticidade-preço da commodity, os países do Golfo se fartaram de dólares em seus cofres, os quais eles não poderiam usar na economia interna porque ela praticamente não existia. Cabe lembrar que esses países eram praticamente uma montanha de areia com um harém sofisticado na capital. A solução para essa riqueza toda foi jogá-la no sistema bancário ocidental, gerando um excedente de capitais que foi utilizado como empréstimos para os países periféricos - as grandes transferências de crédito na Ditadura Militar Brasileira surgem do excesso de petrodólares na praça e a sua liquidez jogava os juros lá embaixo. Ou seja, parte desses dólares era recaptada pelos Estados Unidos via sistema financeiro - e assim, a burguesia estadunidense pôde engordar seus ganhos com uma medida que era, a princípio, moldada para sufocar a economia do império. E o “privilégio exorbitante” que de Gaulle denunciava, ao invés de diminuir, aumentou, afinal, petróleo é muito mais abundante e circula muito mais do que o ouro e a commodity ainda poderia ser lastreada em poderio militar.

Com isso, o sistema financeiro internacional ficou praticamente refém dos Estados Unidos. O sistema SWIFT, centralizado pelo governo americano, pode desligar qualquer um do sistema financeiro internacional, dado que o império controla a circulação de sua moeda no mundo. Com o tempo, e depois da fragorosa derrota no Vietnã, os ianques foram se dando conta de que poderiam estrangular economias e derrubar governos sem precisar desembarcar fuzileiros navais o tempo todo. O primeiro país que sofreu com as consequências disso foi Cuba, mas as sanções ainda não eram vistas como algo eficiente, uma vez que a economia cubana estava interligada ao sistema econômico soviético. 

Com a “Segunda” Guerra Fria e a eleição da social-democracia como nova ameaça candente ao capital, muito embora a retórica continuasse a ser de combate ao comunismo, os Estados Unidos começaram a testar o mecanismo com mais desenvoltura. O desmantelamento da União Soviética e do bloco socialista acelerou a primazia do dólar. Sem o perigo vermelho, Washington sente que não havia trava alguma para poder realizar seus desmandos na economia internacional. É nesse período que o Irã e o Iraque começam a sofrer pesadas sanções unilaterais. E é a partir desse momento que o império se coloca em contraposição a qualquer líder que cismasse comprar ou vender petróleo em moeda que não fosse o dólar. Muito embora a Primeira Guerra do Golfo tenha tido como pano de fundo geopolítico o medo americano de o Iraque hegemonizar as reservas petrolíferas ao anexar o Iêmen, somente nos anos 2000 é que se resolve pegar em armas para extirpar o regime de Saddam Hussein da face da terra. O momento coincide com Bagdá passando a vender petróleo em euro através do programa Oil-for-Food. Os atentados de 11 de setembro deram a desculpa perfeita para invadir o país, muito embora Osama Bin Laden fosse afegão e estivesse escondido no Paquistão. A venda de um grande volume de petróleo em euro atacava diretamente a fonte primária da hegemonia americana e em pouco tempo os marines estavam em territórios iraquianos levando democracia. 

No fundo, não era simplesmente uma questão de petróleo, mas de controle do sistema financeiro utilizando-o como lastro. Para viabilizar perante a opinião pública mundial, Bush afirmava que Hussein tinha estoques de armas de destruição em massa (a mesma ladainha que usam agora contra o Irã, que também tem desafiado a hegemonia do dólar). Antes de invadir, é claro, os Estados Unidos tentaram sufocar a economia iraquiana buscando uma “mudança espontânea de regime”: e na verdade, o objetivo não é a mudança de regime em si, mas enfraquecer militarmente para se tornar possível uma ação violenta quando o contexto torna isso possível.

O mesmo aconteceu com Muammar Kaddafi, da Líbia. Ele não apoiava nenhum “eixo terrorista”, mas ousou elaborar um plano de venda de petróleo na África através de ouro, sem mediação do dólar. Portanto, não dava para usar a cartada da luta contra o terror para promover a queda do mandatário libiano, mas levar democracia ainda estava na mesa e a Primavera Árabe criou o ambiente perfeito para isso: caos social e guerrilha urbana. Com isso, a pretexto de defender os direitos humanos, os Estados Unidos participaram ativamente dos combates, com suporte aéreo e inteligência para capturar o presidente libiano e dá-lo aos sublevados para que o linchasse até a morte para o mundo todo testemunhar. Não se trata aqui de defender a monocausalidade em relação à proteção do dólar, mas sua centralidade na definição da política violenta dos Estados Unidos.

Essa centralidade explica, por exemplo, porque os Estados Unidos optaram por agredir o Irã sem provocação neste ano (2026), para além do convencimento do presidente Benjamin Netanyahu e da explicação fácil de que o maior império do mundo é proxy de um condomínio de fulanos que vivem de ajuda estatal e genocídio. Porém, antes de avançar até Teerã, teremos que voltar no tempo, passar pelo World Trade Center e fazer uma escala na Ucrânia. 

A virada aconteceu em resposta ao 11 de setembro, no qual Washington fica completamente viciado em usar o poder ultrassoberano de emitir sanções unilaterais, elevando-o a um patamar sem precedentes. A Ordem Executiva 13224 permitiu congelar ativos e expulsar entidades do sistema financeiro global sob acusação de terrorismo - e é claro que quem definia quais eram os terroristas seriam os próprios Estados Unidos. Com isso, eles intensificam as sanções contra o Iraque e contra o Irã, cortando os dois do SWIFT. É uma militarização total do sistema financeiro, que atinge ainda outro cume quando os ianques decidem punir empresas estrangeiras (aliadas!) que negociassem com o país persa, as secondary sanctions. Daí veio pacotes mais abrangentes de sanções contra a Coreia do Norte e depois contra a Rússia, galgando outro degrau em 2017, quando as sanções começam a ter uma superestrutura administrativa própria, convertendo formalmente as sanções como política banal.

O paradoxo é que a exposição prolongada às sanções econômicas não só fomentam a união nacional, como faz com que o país se industrialize na marra, pois o Estado precisa voltar a maior parte de sua máquina econômica para o mercado interno e para o setor de segurança e tecnologia de ponta. E aí mora a grande contradição: quando os Estados Unidos sancionam um país, eles estão sancionando a si mesmos, uma vez que aquele país para de usar o dólar como moeda de curso internacional e autarquiza a sua economia. Menos dependência do dólar significa diminuição do poder hegemônico estadunidense. 

Essa vulnerabilidade ficou muito clara com a agressão russa contra a Ucrânia que se iniciou em 2021: o Ocidente correu para puxar a tomada de Moscou do SWIFT, na esperança de que isso causasse uma catástrofe econômica no país e o máximo que conseguiram foi a expulsão do capital ocidental do território russo e uma crise de inflação gerada pela escassez energética, que atingiu aos seus próprios países, como uma criança que cospe para cima. Em resposta, muitos países passaram a comprar e vender petróleo em outras moedas ou até mesmo através do comércio compensado, demonstrando que o poder dos embargos econômicos não são onipresentes. Na prática, usar o poder militar do dólar para manter a hegemonia americana está acelerando o seu processo de decadência, uma vez que nega mercado a si mesmo e diminui a dependência, além de fomentar alternativas a esta moeda. Com isso, os Estados Unidos perdem a sua maior arma de política externa, que é a chantagem financeira.

E isso explica, também, porque a agressão ao Irã foi uma aventura catastrófica, mas não de toda sem alguma racionalidade. Donald Trump pode ser um inepto em muitos aspectos, mas ele sabe muito bem que a hegemonia americana é garantida mais pelo dólar do que pelo poder militar in natura ou pelas “regras do sistema”. Falar que o regicídio do Aiatolá Ali Khamenei foi inspirado unicamente pelos interesses israelenses é negar o papel que o Irã tem na desdolarização do petróleo. O monstro começou a ser criado ainda nos anos 80, quando Washington resolve sancionar um grande país produtor de petróleo, na esperança de vê-lo capitular. Como a vitória não foi possível, tentou cercar o país de inúmeras formas, mas ele era simplesmente muito grande para se resolver com um golpe da CIA ou com bombardeios - e praticamente impossível de se invadir. Por isso, a importância de terminar a Revolução Islâmica via regicídio, porém, os ianques descobriram, a duras penas, que o regime político iraniano não era centralizado no líder espiritual e logo se viram num atoleiro que agravou o problema: em resposta, Teerã fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do comércio internacional de petróleo, causando inflação nos Estados Unidos e no mundo. O mais grave disso tudo, para os ianques, é que a Guarda Revolucionária resolveu desobstruir parcialmente Ormuz se os países aceitassem pagar desembaraços em yuan.

Mas não é só esse pilar que ameaça a hegemonia do dólar. Há algo muito mais fundamental nisso tudo: o imenso déficit comercial que os Estados Unidos realizam graças à sua impressora mágica. Para manter o seu poder hegemônico, Washington emite títulos da dívida pública e vende ao FED, que compra e disponibiliza dinheiro vivo para o governo. O FED então revende esses títulos para outros países. Esses títulos têm o mesmo papel que o ouro: trata-se de um bem simbólico que pode ser reconvertido em dólar se o pessimismo bater. No entanto, eles têm uma vantagem sobre o ouro: o ouro é escasso, os títulos podem crescer ad infinitum, basta ligar a impressora. Não obstante, quanto mais os títulos vão sendo emitidos, mais inflação mundial vai gerando, além de diminuir paulatinamente a margem para o resgate desses papéis com um valor que valha a pena. Em outras palavras, o dólar se deprecia a si mesmo.

A maior parte desses títulos estão em posse da China (ela provavelmente tem mais dólares em sua posse que os próprios Estados Unidos). Caso haja o que os “pundits” burgueses gostam de chamar de “crise de confiança”, pode-se haver uma corrida por resgate, assim como houve com o ouro perto da Primeira Guerra ou no Entreguerras, ou mesmo no fim do Sistema Bretton Woods; ou, no limite, como aconteceu na Crise de 1929. Essa “confiança” pode muito bem se esvair se os fluxos de pagamento ou resgate forem interrompidos de maneira abrupta - basta um crash no setor certo, que nem o afrouxamento monetário será capaz de conter a sangria. A economia americana não apresenta apenas algumas bolhas, é um verdadeiro queijo suíço, especialmente após a desregulação do sistema financeiro neoliberal - IA, endividamento educacional, complexo industrial-militar, criptomoedas, setor imobiliário, para citar os que estão mais na moda. O fim da hegemonia americana passa necessariamente por essa crise, que será o fator reorganizativo da relação entre capital e trabalho - e, na prática, isso significa empobrecimento, fome, vácuos de poder e guerra sistêmica. A análise do atual panorama da economia internacional não só mostra que o Dilema de Triffin continua relevante, como ele será o responsável pela debâcle da atual fase de acumulação capitalista.


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